Qualquer aficcionado por livros sempre prefere o livro ao filme. E com raríssimas exceções, os livros são melhores que os filmes. Não por incompetência de quem os faz mas porque é difícil, muito difícil, transportar para a linguagem do cinema o que está no livro. As ferramentas são mais limitadas enquanto os livros dependem apenas da imaginação do autor e do leitor.
No caso de Cosmópolis (Dani deLillo, edition), o filme e o livro se tornam parte de uma só forma de linguagem. Comecei a ler o livro e achei árido demais. Não consegui passar dos 25%. Resolvi ver o filme, o que só queria ter feito após ter terminado o livro. Não me arrependi. Depois de ver o filme, peguei o livro e consegui ler em dois dias, gostando de tudo o que estava escrito ali. O filme acrescentou uma terceira dimensão ao livro, que, até então parecia ter apenas duas. David Cronenberg, o direitor, conseguiu transferir para o cinema a sensação de sufoco e falta de perspectiva de Eric Packer.
Eric Packer é um multibilionário de 28 anos que decide cortar o cabelo do outro lado de Manhattan em um dia de trânsito congestionado por causa da morte de um rapper famoso, de quem ele é, inclusive fã, além da visita do Presidente dos Estados Unidos. Enquanto tenta atravessar a cidade em sua limousine branca, aumetada e à prova de som, encontra a esposa, conselheiros financeiros, faz sexo com sua amante e uma de suas seguranças e perde sua fortuna porque resolveu apostar na moeda japonesa, acreditando que iria se desvalorizar e a valorização ao longo do dia e sua teimosia em insistir no investimento levam sua fortuna para o nada.
O livro vai mostrando sua tentativa de encontrar alguma coisa que dê sentido à sua vida, sem nunca cair em clichês além da tentativa de manter algum tipo de contato com as pessoas. Até que encontra alguém com quem conversa sobre o os levou até ali. Esse alguém, para dar sentido à própria vida, tem como objetivo matar Eric Packer. Não se sabe se ele morre ou não. Mas como disse o próprio assassino em potencial: você já está morto mesmo. E é essa a sensação que se descobre ao terminar o livro: Eric Packer já está morto mesmo, por isso a indiferença a tudo e sua busca por sensações que o façam se sentir vivo: pedir que sua segurança o atinja com a arma de choques elétricos até perder sua fortuna inteira por um ato de teimosia.
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