sábado, 30 de maio de 2015

O Passado Romântico

O presente é insatisfatório porque a vida é um pouquinho insatisfatória.

Essa frase é dita por Gil Pender, personagem do filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen. Gil Pender é autor de roteiros de filmes e está em Paris com a noiva e os pais dela. Sente uma insatisfação na vida e na profissão. No lugar de escrever roteiros preferia estar escrevendo ao lado de Hemingway e outros escritores daquela que acredita ser a melhor década para a literatura: os anos 20. Inclusive porque Hemingway e vários outros moravam em Paris nos chamados "Roaring Twenties".

Gil tem uma visão romântica dos anos 20. Acredita que quem viveu na época era mais interessante, tinha mais densidade, ao contrário da superficialidade das pessoas do presente, preocupadas mais em escolher uma cadeira de 4.000 euros (como sua noiva e a mãe dela) do que passear por Paris.

E é para os anos 20 que Gil vai, depois de entrar em um carro antigo assim que um relógio bate meia noite. Conhece não só Hemingway mas também Picasso, Gertrude Stein, Salvador Dali, Man Ray, Scott Fitzgerald e Zelda. E se apaixona por uma moça, Adriana. Ela, insatisfeita com o próprio presente - os anos 20 tão sonhados por Gil - resolve ir para a Belle Époque, quando (surpresa!) os pintores que encontram em uma espécie de cabaré, sonham com a Renascença. E é nesse momento que Gil tem uma (pequena, de acordo com ele) revelação: ninguém está satisfeito com o próprio presente. E isso acontece porque o presente é um pouco insatisfatório, exatamente porque a vida é um pouco insatisfatória. Adriana decide ficar na Belle Époque. Mas ele volta para o século XXI, põe um fim no noivado e o filme termina com ele caminhando às margens do Rio Sena com uma moça, também do século XXI, que não tem nenhum problema em se molhar quando chove. Tal como Gil.

Lembrei desse filme quando tive uma infecção no ano passado e só comecei a melhorar quando o médico prescreveu antibióticos. Quando passou pela Belle Époque, Gil lembra Adriana que aquelas da Belle Époque sequer tinham acesso a antibióticos, inventados depois. Mas o filme é mesmo uma declaração de amor ao presente e à vida que vivemos aqui e agora porque, afinal de contas, é a única coisa que temos. O passado é só memória, por melhor ou pior que tenha sido. O futuro é apenas uma promessa e, na maioria das vezes, fonte de ansiedade. O presente é tudo. Nossa vida também. Por mais que a vida alheia pareça mais interessante e sem problemas, é a nossa que temos para viver.


Tecnologia ou Telepatia?

Como seria o mundo se no lugar de tecnologia tivéssemos telepatia?

É essa a premissa de fundo da série Darkover, livros escritos por Marion Zimmer Bradley a partir de 1962. Ela ficou famosa em épocas mais recentes depois que escreveu As Brumas de Avalon, que conta a história do Rei Arthur sob o ponto de vista das mulheres da história.

A ideia da série Darkover é de que em um futuro próximo, os habitantes da Terra conseguem desenvolver uma tecnologia avançada o suficiente para permitir viagens interplanetárias. Suficiente mas não perfeita, porque uma nave cai em um planeta parecido com o nosso sem qualquer possibilidade de conserto. Os tripulantes começam a interagir com os habitantes do planeta, espécie parecida com as ninfas da mitologia grega. Da relação entre eles nasce uma casta de pessoas com poderes telepáticos. Esses poderes são: troca de pensamentos, empatia (sentir o que o outro está sentindo), penetrar na mente de animais e controlá-los, poderes de influenciar no movimento de objetos. As pessoas dotadas desses poderes se organizaram em castas e a sociedade como um todo se organizou em uma sociedade similar ao sistema feudal daqui. Os poderes telepáticos aparecem na adolescência e as pessoas deles dotadas são treinadas em lugares chamados Torres, onde aprendem a usá-los e controlá-los.

Séculos depois, os habitantes da Terra chegam a Darkover, cujos habitantes esqueceram qualquer relação com nosso planeta ou qualquer memória daquela nave que caiu ali séculos antes. 

A série compreende vários livros, sem sequência cronológica ou relacionados uns com os outros, com exceção de dois ou três, que são partes de uma mesma história. Cada livro pode ser lido individualmente, inclusive o que conta como a nave da Terra caiu em Darkover, escrito depois da série já ser um sucesso e para explicar como tudo começou.

Parte dos livros conta como era a sociedade e a relação entre as pessoas em Darkover e, a outra parte, como foi a interação com as pessoas da Terra, depois que o planeta foi "redescoberto" e foi instalada uma base ali, com toda a tecnologia que a Terra desenvolveu até então.

A ideia de que planetas podem ter se desenvolvido sem tecnologia e com outras formas que permitem a evolução sem a dependência das forças naturais é boa. Tenho sempre a impressão de que quando se discute a existência de seres pensantes vivendo em outros sistemas planetários, parte-se do princípio de que tem que ser exatamente como nós, enquanto imagino que as possibilidades de desenvolvimento racional, de pensamento e formas de superar as forças naturais é infinita. É difícil imaginar algo a respeito do que não conhecemos e sem partir de algo para ir além. No Apocalipse, por exemplo, S. João se refere a aviões como pássaros de ferro cuspindo fogo. Ele não fazia ideia do que seria um avião mas para definir o objeto que viu partiu de três coisas conhecidas: pássaro, fogo e ferro. Se não conhecesse nenhum dos três não teria como descrever o que viu, conseguiria muito menos imaginar. O mesmo se passa conosco quando tentamos imaginar outras possibilidades de desenvolvimento de seres inteligentes, sem termos qualquer ponto do qual partir.

Por essas razões a série Darkover me cativou. Além disso, Marion Zimmer Bradley escrevia muito bem. Alguns dos livros da série foram terminados por outra escritora, quando ela já estava em estágio avançado de câncer. Mas são bons também. 

PS: a foto do posto é Darkover e suas quatro luas.

domingo, 22 de março de 2015

Semiótica, Politicamente Correto e a Negação da Realidade




A Semiótica é a ciência criada pelo suíço Ferdinand de Saussure (Genebra, 1857-Morges-1813) e tem por objeto o estudo dos signos. Signo é... praticamente tudo: idiomas, palavras, gestos, roupas, fotografia, jóias, tatuagens, expressões corporais. Conhecemos a realidade através dos signos e eles, ao mesmo tempo, auxiliam na nossa percepção dessa mesma realidade. A forma como vemos o mundo, nossas filosofias, ideologias, preconceitos, estão diretamente relacionados com os signos por meio dos quais tomamos contato com o mundo.

Na concepção de Saussure, o signo é composto de duas partes: o significante e o significado. O significante é a forma assumida pelo signo e o significado é o conceito que ele representa. Note-se que o signo não reflete a realidade ou algo concreto mas, sim, nosso conceito de realidade e desse algo. A palavra carro é um signo. O significante é carro e o significado é a idéia de um veículo automotor normalmente conduzido por um ser humano. 

Normalmente, a escolha de um significante para representar um significado é arbitrária a princípio mas, com a utilização, o signo adquire existência histórica e o significante não pode ser alterado ou modificado arbitrariamente mais. O mesmo se dá com o significado atrelado a um significante. Há alterações feitas em um deles ou ambos, mas de forma gradual, lenta, ao longo de um bom espaço de tempo e com uma aceitação mais ou menos geral e até que se passe a utilizar aquele significante com um novo significado ou o significante passa a estar atrelado a um novo significado.  Considerando a arbitrariedade da escolha de um significante para um significado, a única lei que rege o signo é a tradição. 

Há algumas poucas décadas surgiu um movimento que passou a ser conhecido como politicamente correto. De acordo com a wikipedia, é: "uma suposta política que consiste em tornar a linguagem neutra em termos de discriminação e evitar que possa ser ofensiva para certas pessoas ou grupos sociais, como a linguagem e o imaginário racista ou sexista." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Politicamente_correto). Ou seja, para não ofender uma pessoa cuja pele é negra, no lugar e chamá-la de negra (o que seria óbvio, já que a cor da pele é exatamente essa) passa-se a chamá-la de "afrodescendente". Pessoas com deficiências físicas passam a ser chamadas de portadoras de necessidades especiais. Paro por aqui com os exemplos porque a lista é longa. Mas a idéia fica clara com esses dois que mencionei: o que politicamente correto tenta, ao alterar alguns termos (em outras palavras, alterar o significante atrelado a alguns significados), é alterar, via reflexa, o significado. Como se uma pessoa racista deixasse de ser racista por chamar de afrodescendente uma pessoa negra. Ou se o fato de chamarmos de "portadora de necessidades especiais" uma pessoa que necessita de cadeira de rodas porque não consegue usar as pernas não tivesse uma deficiência locomotora. Nada mais bobo. Ou inútil.

O politicamente correto consegue, apenas, tornar ainda mais hipócritas as relações sociais. Se o processo de alteração de um significante é lento, a do significado é ainda mais, porque é um processo que envolve a mudança em padrões constituídos pela criação, filosofia, valores da pessoa e da sociedade onde está inserida. Retornando aos exemplos acima. Se uma pessoa nascida em um país racista (como a África do Sul durante o apartheid ou o sul dos Estados Unidos), cresce com a idéia de que uma pessoa negra é inferior e merece assim ser tratada, seu próprio conceito de "pessoa negra" é racista. Chamar essa pessoa de "nigger" (termo extremamente ofensivo em inglês), negra ou afrodescendente não alterará em nada o significado racista da sua idéia de negro. Apenas o esconderá.

E ao esconder o significado atrelado ao significante que o politicamente correto tenta alterar, esse movimento bobo auxilia a negar a realidade. Em outras palavras: varre a existência dos preconceitos para debaixo do tapete e assim tenta se enganar de que eles não existem. Ou vetar que um racista se expresse, assim como qualquer outra forma de preconceitos (que existiram, existem e sempre existirão), o politicamente correto impede que tais situações sejam modificadas. O Grande Freud descobriu que as neuroses são provocadas por repressões de coisas de que não gostamos em nós ou na nossa sociedade. Só que ele também descobriu (e é um dos fundamentos da Psicanálise) que a única forma de lidar com elas é trazê-las para a luz: a consciência. O Oráculo de Delfos já dizia isso conhece-te a ti mesmo. O Evangelho também tem algo parecido (Mateus, 7:3-5): Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando há uma viga no seu?Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão." Esse trecho do Capítulo 7 de Mateus é exatamente o que Freud chamou de projeção: vemos no outro aquilo que mais reprovamos em nós mesmos, mas que mas negamos.  

Ao esconder o racismo, sexismo, antissemitismo, homofobia por detrás de palavras bonitinhas, arrumadinhas e que supostamente negam que tais coisas existam, o politicamente correto está simplesmente fazendo como o avestruz que esconde a cabeça na terra e, assim, acha que está bem escondido. Só que essas coisas continuam ali, crescendo e adquirindo força e como tudo o que é reprimido, vão voltar um dia com uma violência proporcional à força da repressão. 
  
E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?
Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.

Mateus 7:3-5

Two Lives

Imagine que você nasceu em um certo país. Seus pais nasceram nesse mesmo país.. Os pais de seus pais e os pais deles também. Seus irmãos e seus amigos, a mesma coisa. A língua falada nesse país é a sua língua e esse país é o lugar que você chama de casa: sua pátria.

Até que um dia, algumas pessoas assumem o poder e por causa de sua religião e da sua identificação como pertencente a um determinado povo, você é considerado um ser inferior e sujo. Demitem você e todos do mesmo povo de seus empregos, obrigam vocês a entregarem jóias, prataria, casacos de pele e quaisquer outras coisas de valor. Sem emprego, vocês são obrigados a vender a casa ou a devolver ao proprietário, se alugada. Não tem mais dinheiro para se aquecer no inverno (o país é frio) e começa a passar fome. Aí você é obrigao a usar uma marca, um símbolo que o identifica como membro do povo ao qual você pertence. Você não pode mais frequentar teatros, cinemas, restaurantes bares, ser membro de clubes tudo por causa de ser identificada como membro de um determinado povo. Seus amigos, que não fazem parte desse mesmo povo, se afastam com medo de serem perseguidos, presos e mortos. Até que capturam sua família e você, que havia conseguido mudar de país antes das coisas ficarem muito ruins, fica sabendo que todos foram assassinados, não sem antes passarem por muita fome, humilhação e sofrimento. 

Essa é a história do povo judeu na Alemanha e nos territórios que esse país ocupou durante o regime nazista de 1933 a 1945 e a segunda guerra mundial, entre 1939 e 1945.

Já li alguns livros sobre a Segunda Guerra e sobre o nazismo. Alguns narrando fatos de pessoas reais e outros de ficção. Nunca deixo de ficar triste e indignada com tanta irracionalidade, arrogância e burrice.

Não foi diferente ao ler Two Lives, do escritor Vikram Seth. Ele conta a história de seu tio avô Shanti Seth e sua esposa alemã, Henny Caro, que conseguiu emigrar para a Inglaterra em 1938, mas perdeu a família assassinada pelos nazistas.

Já conhecia o talento dele como escritor de começar  (e não terminar) A Suitable Boy e An Equal Music. Tendo nascido na Índia mas estudado e morado na Inglaterra e Estados Unidos, Virkam consegue traçar um panorama da vida nos três lugares de uma forma distante o suficiente para não ser parcial, mas próxima o bastante para não ser fria.

As pessoas cuja história é contada no livro permanecem vivas e suas experiências e emoções vão mostrando o momento histórico em que viveram, principalmente durante a segunda guerra e todo oh horror que foi aquilo.

O livro tem coisas memoráveis, tais como a discussão entre Shanti e um coronel inglês, enquanto serviam o exército aliado na África. A discussão ocorreu a respeito dos motivos do domínio inglês na Índia, ainda uma colônia inglesa.O coronel tenta justificar a colonização e Shanti fala que se os ingleses acham que os hindus são idiotas e por isso querem dominá-los, é possível. Mas dizer que é para o bem dos hindus ou que eles precisam de ser educados é inaceitável. A cultura hindu é muito mais antiga do que a inglesa. Na época dos romanos, pessoas do exército eram levadas para a Grã Bretanha como punição.

Abro um parêntese para lembrar que os alemães, com toda a sua idiotice em se considerarem superiores ao resto da humanidade, esqueceram-se de que também, na época do Império Romano, eram tão toscos que foram chamados de bábaros. Sem falar que a tomada de Roma por eles provocou aquele período que muitos chamam de idade das trevas. tsc tsc tsc

Outra passagem memorável do livro é a análise filosófica a respeito da paz feita por Alfred E. Rowett, em 1945. Ele era Chairman of the British Dental Association, conhecido de Shanti por este último ser dentista. Ele fala que esperava que a bomba atômica tivesse mostrado à humanidade que política e economia são um meio e não um fim. E não existe algo como uma paz permanente. Paz não é uma coisa estática: é o exemplo supremo do equilíbrio em movimento. E se nos privarmos do Absoluto eterno, inevitavelmente divinizaremos e tornaremos absoluta alguma coisa mundana.

O livro perde muito quando o autor passa a falar da vida de Henny através das cartas que ela trocou após o término da guerra e durante os anos quarenta. Ficam repetitivas e cansativas de se ler. Conseguem, porém, traçar um bom panorama do que foi viver na Alemanha depois do fim da guerra e como as pessoas, ao se deparerem com todas as privações que sofriam (faltava comida, aquecimento, roupas, empregos, casas) eram consequência da guerra que o país deles tinha começado.

Divido o livro em três partes: a primeira, interessante, vibrante, fala sobre a experiência do autor na casa do tio em Londres. A segunda, conta a vida do tio na Alemanha, quando conheceu a esposa e depois a vida dele na Inglaterra e durante a guerra. A terceira parte, falando da vida da esposa através da troca de cartas poderia ter um quarto do tamanho e sem a transcrição das cartas como feita. A última parte fala da vida do tio após o falecimento da esposa e também não é muito interessante. Mas o livro vale a pena pela primeira e segunda partes (de acordo com a minha divisão, não a do livro), até mais ou menos a página trezentos.

Bye Bye Bento XVI

Bento XVI renunciou. Ninguém comprou a versão de que seria por falta de condições físicas: idade avançada e doenças cardíacas. Seu antecessor, João Paulo II, visivelmente muito mais debilitado, aguentou até o fim. Vendo o velhinho rezar missas e distribuir benções mundo a fora, dava vontade de gritar: Vai para casa descansar, João Paulo. Mas ele não foi. E morreu papa.

Já no mesmo dia do anúncio da renúncia, começarasm as especulações sobre os motivos reais da renúncia: escândalo no Banco do Vaticano, acusado por alguns de lavar dinheiro, padres, bispos, cardeais ao redor do mundo acusados de pedofilia. Seria esse o motivo? O papa teria tentado "limpar" a igreja e não teria conseguido e por isso teria perdido seu apoio e, vendo-se isolado, preferiu renunciar? A questão da renúncia, a partir das especulações sobre os motivos por detrás, levaram a discussões a respeito da própria Igreja Católica, seu papel no mundo atual e sua sustentabilidade em face desses  dois problemas graves: acusação de lavagem de dinheiro em seu banco e de pedofilia praticada por vários de seus membros.

Em sua coluna de 18/02/2013, publicada na Folha de São Paulo, Luiz Felipe Pondé foi muito sábio ao afirmar que "a igreja teria um corpo mundano (pecador como o de todo o mundo) e um corpo místico (voltado a Deus, à eternidade, inserido no mundo assim como Deus encarnou num homem, Jesus)". Concordo. A Igreja é composta de seres humanos, como de resto todas as religiões do mundo. E o ser humano tem um lado iluminado e um lado negro. George R. R. Martin, genial autor da série Uma Canção de Gelo e Fogo, disse em uma entrevista (a igreja teria um corpo mundano (pecador como o de todo o mundo) e um corpo místico (http://youtu.be/fHfip4DefG4) que seus personagens não tem apenas um lado bom ou um lado ruim: sempre tem os dois. Para ele, a grande batalha é travada dentro do ser humano. A mesma pessoa capaz de atos generosíssimos pode ser um pedófilo ou espancar os filhos pequenos. Temos a possibilidade de ir para qualquer um dos lados: está tudo aí dentro. Qual uso vamos fazer de cada um é uma outra história.

Não dá para condenar a Igreja Católica como instituição apenas pelo que seus membros, seres humanos como nós, fazem. É e sempre foi assim. A Índia deu ao mundo Buda, Osho, os Upanishads, Taj Mahal mas tem um sistema terrível de castas que exclui qualquer pessoa considerada de casta inferior. Os Estados Unidos, onde a democracia nasceu e cresceu junto com a própria história do país, apoiaram e apoiam ditaduras horrorosas mundo afora, desde que favoreçam seus interesses. A Alemanha deu ao mundo Goethe, Beethoven, Bach, Einstein mas também deu o nazismo. O Brasil é famoso pela simpatia, alegria e hospitalidade de seus habitantes, mas também pela corrupcão e pelo "jeitinho" para se obter qualquer coisa.

Apesar da pedofilia e do escândalo do Banco do Vaticano, a Igreja Católica manteve a filosofia, literatura e arte durante séculos. É bom lembrar que se não fosse pelo Papa Júlio II, Michelangelo não teria pintado a Capela Sistina.

Antes de condenar a Igreja como instituição pelas falhas de seus membros humanos, demasiadamente humanos, parafraseando Nietzsche, é bom lembrar que todos nós temos um lado negro e um lado de luz. Às vezes um, às vezes outro aparece. E assim, tudo o que nós tocamos também vai ter esses dois lados. Afinal, a polaridade faz parte da vida e só não está sujeito a ela quem já se iluminou. E quem já se iluminou não tem um lado negro, apenas luz.

Tudo isso porque a polaridade faz parte da vida: sol e luz, dia e noite, seco e molhado, fogo e água e a polaridade última que é o bem e o mal, esse último personalizado na Bíblia como Deus e Satanás. Mas toda polaridade é apenas os dois lados de uma mesma moeda, tanto que na própria Bíblia, o mal foi criado por Deus ou, pelo menos, o seu autor, Satanás. Se tudo foi criado por Deus, inclusive Satanás, o mal também foi indiretamente criado por ele. A iluminação é, então, a transcedência da polaridade, a unidade. Mas para chegar até ela, é preciso viver a polaridade, que é o que nós fazemos aqui.  E só não está sujeito à polaridade quem já se iluminou. E quem já se iluminou não tem um lado negro, apenas luz.

Três Imperadores e a Estrada Para a Primeira Guerra



Assuntos relacionados à Primeira Guerra Mundial nunca me interessaram. Sabia apenas que havia sido iniciada quando o herdeiro do império austro húngaro, Franz Ferdinand e sua esposa, foram assinados em Sarajevo. E apesar da Sérvia ter atendido a todas as exigências feitas pelo Império Austro Húngaro, este invadiu aquele país assim mesmo. Apesar da falta de interesse sobre o assunto, fiquei curiosa quando li a respeito do livro de Miranda Carter, Three Emperors and the Road to World War One, publicado no Brasil com o título de Os Três Imperadores, editora Objetiva.

O livro em si é cansativo. Miranda Carter escreve muito bem mas desce a minúcias que tornam a leitura tediosa. A inserção de trechos de cartas o tempo todo quebra a narrativa e repete o que ela havia dito antes ou vai dizer depois. O número de pessoas mencionadas, na maioria das vezes com atuação secundária ou ainda menos importante, nos eventos narrados, fizeram com que, muitas vezes, eu não tivesse a menor idéia de quem se tratava. Outras pessoas que desempenharam papel relevante na história, como Lênin, são apenas mencionados, sem qualquer informação sobre o que faziam na época, como chegaram até o lugar que ocuparam.

Mas como quase nada é totalmente ruim, o livro foi um exemplo muito interessante de como a vida atropela as pessoas que se recusam a ver que mundo muda. Seja por uma megalomania que as fazem acreditar que possuem um direito divino a serem como são, a recusarem críticas e a acharem que quem manifesta opinião contrária é inimigo, como o Kaiser Willhelm da Alemanha, seja porque preferem fechar os olhos e ouvidos a tudo que não se passa dentro da própria casa, como aconteceu com o Tsar Nicolai. Quando nos recusamos a ver que o mundo mudou e a nos adaptarmos a essas mudanças, a vida nos atropela. E atropela tanto no âmbito de nossas relações pessoas quanto em nível maior, dependendo do nosso âmbito de atuação no mundo à nossa volta.  O Tsar Nichalai, por anos, recusou-se a ouvir e a tentar atender os pedidos de reforma. Quando achou que o órgão que ele próprio criada, o Duma,  tentava ter representação no governo e pleiteava mudanças pressionou o Tsar, já durante a guerra, ele simplesmente o aboliu. 

Dos imperadores do título, o único que continuou a ser imperador após a guerra foi George V, da Inglaterra. Mas se antes da guerra o papel do rei inglês já era muito reduzido, após a guerra adquiriu a feição que tem até hoje. Como disse Miranda Carter no livro (pag. 495, da edição da Penguin: "it was George who established the British monarchy as the domestic, ceremonial, slightly stolid creation it is today". Ele foi esperto de agir assim. As monarquias européias, que na segunda metade do século XIX, ficaram na contra mão da história, tentando manter seus privilégios, fechando os ouvidos aos pleitos de quem não tinha terras ou origem nobre, sem perceber que o mundo havia mudado, foram para o reino do beleléu. E nunca mais saíram de lá.

domingo, 15 de março de 2015

Por Que Virei à Direita? Não Consegui Entender.

Gosto muito das colunas de Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho, publicadas no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, nas segundas e terças feiras, respectivamente. Por isso fiquei curiosa para ler o livro Por Que Virei à Direita, escrito por eles e também por David Rosenfield (ed. Três Estrelas). Sabia que o livro havia sido divido em três partes, três ensaios, um de cada autor, justificando porque passaram a seguir uma linha político filosófica de direita, no lugar de uma linha de esquerda. O entusiasmo com que comecei a ler foi o mesmo com que comecei a ler Deus, Um Delírio, do biólogo inglês Richard Dawkins (Editora Companhia. das Letras). A decepção também foi parecida.


Em Deus, um Delírio, Richard Dawkins tenta (e falha) demonstrar que a teoria da evolução é um fato comprovado. Não é. É uma teoria criada em cima de descobertas arqueológicas. As descobertas arqueológicas são um fato. A evolução é a teoria. Não obstante a beleza e lógica da descoberta (que eu, inclusive, acredito ser verdadeira), continua sendo uma teoria. Ele confronta a teoria da evolução com a idéia de Deus. Mas não convence no sentido de que uma é um fato (evolução) enquanto a outra é mito. Não pretendo dizer que uma vale mais do que a outra, mesmo porque acho que a idéia de Deus e a teoria da Evolução são perfeitamente compatíveis. Mas ele se propôs a uma coisa e não conseguiu. Daí minha decepção.


Tive a mesma sensação ao ler Por Que Virei à Direita. Os autores tentam justificar, do ponto de vista filosófico, porque o que se convenciou a chamar de direita em contraposição à esquerda, é melhor do que esta última, mas só conseguem atacar os esquerdistas. Mencionam as barbaridades feita pelos adeptos da chamada esquerda ao longo do século XX, no que tem toda a razão. Mas não conseguiram demonstrar como o mau uso da filosofica política dita de esquerda afeta a filosofia em si.


Dos ensaios em si, do que mais gostei foi o de David Rosenfield. Achei os outros dois um pouco "name droppers". Gostei de ver que Luiz Felipe Pondé, casado com uma psicanlista como ele informou no programa Roda Viva, concorda comigo no sentido de que o ser humano é dominado por suas paixões e não consegue usar a razão para contrá-las. Abrindo um parêntese, sempre achei que nossa capacidade de raciocinar nos especifica com relação aos animais nossos companheirs de gênero (biologia) mas não é a caracterísica que nos define.

Também concordo com Pondé no fato de que a esquerda, ao tentar estabelecer uma igualdade entre desiguais - afinal cada ser humano tem sua individualidade e capacidade - cria uma igualdade artificial e imposta, o que não se sustenta sozinha ou necessita da opressão e violência para se manter.

Mas, no geral, como mencionado acima, os autores falharam em apontar os erros da esquerda. Os erros que  apontam se referem à conduta dos esquerdistas e não à doutrina da esquerda em si. É o mesmo que criticar os ensinamentos de Jesus tomando-se por base a conduta dos cristãos (inquisição, venda de indulgências, perseguição aos muçulmanos nas cruzadas e aos judeus durante o holocausto e também em épocas anteriores, intolerância, apoio à escravidão) ou de Buda levando-se em conta a conduta dos Budistas ou de Maomé considerando os muçulmanos, etc.

Enfim, a proposta do livro é interessante mas de argumentação falha. E me fez acreditar mais naquilo que costumo dizer quando se discute qual filosofia política é melhor, esquerda ou direita: o problema não está na linha filosófica ou política. Está no ser humano. Se o ser humano se tratar e passar a ser senhor de si, qualquer linha filosófica ou política será boa. Ou talvez não haverá necessidade de nenhuma.